Fundações e Institutos Comunitários (FICs)

Autor Carla Irrazabal, Felipe Insunza Groba e Rosana Ferraiuolo (IDIS – Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social)

Definição do conceito

Fundações e Institutos Comunitários (FICs) são organizações da sociedade civil que atuam em um território específico, como bairros, cidades, regiões metropolitanas, estados ou outros arranjos territoriais, com o objetivo de fortalecer o desenvolvimento local a partir das prioridades definidas pela própria comunidade. Com inspiração no modelo internacional das community foundations, mobilizam recursos, articulam atores intersetoriais e apoiam iniciativas alinhadas às demandas do território. 

As FICs são praticantes da filantropia comunitária, abordagem que valoriza o protagonismo local, a construção de relações de confiança e a atuação de longo prazo. Atuam conectando pessoas, organizações da sociedade civil formais e informais, empresas e poder público, fortalecendo redes e contribuindo para a construção de soluções e agendas comuns para o fortalecimento do ecossistema socioambiental local.

Atuação das FICs no ecossistema territorial

Fonte: IDIS. Carta de Princípios para Fundações e Institutos Comunitários. 2021.

Origens e evolução do verbete

O conceito de fundações comunitárias surgiu nos Estados Unidos no início do século XX, com a criação da primeira community foundation em Cleveland, em 1914. O modelo foi desenvolvido para reunir diferentes doações em um fundo permanente destinado a apoiar necessidades e oportunidades identificadas na própria comunidade. 

Ao longo das últimas décadas, o conceito evoluiu e passou a incorporar novas dimensões para além da gestão de doações individuais. Em muitos contextos, essas organizações passaram a desempenhar papéis de articulação entre atores locais, produção de conhecimento sobre o território e fortalecimento de organizações comunitárias.

No Brasil, a partir dos anos 2000, iniciativas inspiradas nesse modelo começaram a surgir e, com o avanço do Programa Transformando Territórios (2020), consolidou-se o uso do termo Fundações e Institutos Comunitários (FICs). Mais do que uma tipologia institucional, o modelo passa a ser orientado por princípios de desenvolvimento territorial, como o protagonismo comunitário, a mobilização de recursos locais, a governança participativa e o fortalecimento de capacidades, que posicionam o território como sujeito ativo na definição de suas prioridades e soluções.

Contexto e relevância

No campo do Investimento Social Privado (ISP), as FICs têm se consolidado como organizações articuladoras e com um profundo conhecimento do território, o que as destaca na posição de gerir e aproximar recursos filantrópicos das prioridades dos territórios. Por serem organizações formadas pela comunidade e com grande legitimidade, possuem maior capacidade de identificar demandas locais, mapear iniciativas existentes e construir relações de confiança nos territórios. Essa proximidade contribui para que estratégias de investimento social sejam mais aderentes às dinâmicas territoriais e dialoguem com as prioridades definidas pelas próprias comunidades.

A atuação das FICs se dá por meio de funções interdependentes que, de forma integrada, estruturam a capacidade do território de mobilizar, gerir e direcionar recursos para seu próprio desenvolvimento. Isso envolve a articulação contínua entre atores locais, o fortalecimento de capacidades de organizações e lideranças, a mobilização e gestão de recursos por meio de fundos e estratégias de doação, a produção e uso de conhecimento sobre o território e o apoio a iniciativas alinhadas às prioridades locais. Ao operar de forma integrada, essas dimensões contribuem para consolidar uma infraestrutura filantrópica territorial, fortalecendo ecossistemas mais colaborativos, resilientes e capazes de sustentar processos de desenvolvimento no longo prazo.

Debates, disputas e perspectivas

Em diferentes países e contextos, as FICs assumem formatos variados e desempenham papéis distintos no ecossistema filantrópico. Ainda assim, compartilham princípios que orientam sua identidade e atuação, como serem instituições locais, representadas por membros da comunidade e juridicamente estabelecidas, com visão de longo prazo e atuação multitemática. Também se caracterizam pela mobilização de recursos de fontes diversas, pela atuação como grantmakers, assessorando a jornada filantrópica de doadores, e pela promoção do apoio institucional e técnico a iniciativas e organizações do território. Essas funções se combinam de diferentes formas nos territórios, podendo incluir, entre outras possibilidades, a gestão de fundos filantrópicos de indivíduos, famílias ou empresas e o desenvolvimento de fundos comunitários próprios, ao mesmo tempo em que exercem um papel mais amplo de articulação e promoção de iniciativas de desenvolvimento territorial.

Outro debate relevante refere-se à participação comunitária nos processos de decisão. Para que as FICs contribuam efetivamente para o fortalecimento do protagonismo local, torna-se fundamental que seus mecanismos de governança e definição de prioridades sejam transparentes e representativos da diversidade existente nos territórios. Essas discussões têm impulsionado reflexões no campo da filantropia sobre temas como distribuição de poder, legitimidade institucional e construção de soluções a partir das próprias comunidades.

Exemplos de aplicação prática

No Brasil, um exemplo relevante de fortalecimento desse campo é o Programa Transformando Territórios, que desde 2020 atua para a ampliação e consolidação de um ecossistema de fundações e institutos comunitários em diferentes regiões do país. Ao reunir organizações com distintos níveis de maturidade institucional, o Programa estrutura um espaço contínuo de troca, aprendizagem e desenvolvimento do modelo no contexto brasileiro, combinando apoio ao desenvolvimento institucional com a construção coletiva de referências, práticas e instrumentos para o campo da filantropia comunitária territorial.

Ao longo de sua trajetória, o Programa tem impulsionado iniciativas que articulam comunicação, formações técnicas, mobilização de recursos e inovação aplicada aos territórios, contribuindo para fortalecer a capacidade das FICs de atuar de forma estruturada e sustentável. Entre essas iniciativas estão a produção de conteúdos como a Websérie Transformando Territórios, intercâmbio entre organizações participantes e o desenvolvimento de instrumentos como os fundos emergenciais preventivos, que ampliam a capacidade de preparação e resposta dos territórios frente a crises. Essas ações, integradas, contribuem para consolidar o modelo de atuação das FICs e fortalecem a filantropia comunitária como estratégia de desenvolvimento territorial no país.

Materiais para aprofundamento

  • Carta de princípios para Fundações e Institutos Comunitários
    • Autoria: IDIS – Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social
    • Formato: página web
  • Como criar uma Fundação ou Instituto Comunitário
    • Autoria: IDIS – Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social
    • Formato: relatório
  • Websérie Transformando Territórios (playlist oficial)
    • Autoria: IDIS – Programa Transformando Territórios
    • Formato: vídeo
  • Cases das Fundações e Institutos Comunitários
    • Autoria: IDIS – Programa Transformando Territórios
    • Formato: página web
  • Para cada território, uma solução: práticas para fundações e institutos comunitários no Brasil
    • Autoria: Nicholas S. Deychakiwsky, Paula Fabiani, Felipe Insunza Groba e Rodrigo Pipponzi
    • Formato: página web
  • What is Community Philanthropy?
    • Autoria: Global Fund for Community Foundations (GFCF)
    • Formato: relatório
  • The Value of Community Philanthropy
    • Autoria: Charles Stewart Mott Foundation; Aga Khan Foundation; Global Fund for Community Foundations (GFCF)
    • Formato: relatório